Ações brasileiras: risco/retorno parece muito melhor agora
Embora os riscos associados à delicada situação fiscal do país tenham aumentado nos últimos meses, os valuations se ajustaram significativamente, com o índice agora sendo negociado a menos de um desvio padrão acima de sua média histórica (13,7x vs. 12,7x 2021E P/L). O Earnings Yield (rendimento dos lucros, ou prêmio para manter ações) está agora um desvio-padrão acima de sua média histórica usando os lucros de 2021, mesmo após o pico nas taxas de juros reais de longo prazo. Neste ponto, vemos um risco/retorno mais atraente para as ações brasileiras.
Adicionando a Gerdau e aumentando nossa exposição à Construção e a Infraestrutura
Estamos aumentando a exposição à Construção e Infraestrutura com a adição da produtora de aços longos Gerdau. A demanda por obras de construção está crescendo no Brasil e um BRL mais fraco abriu caminho para aumentos de preços do setor. Junto com Cyrela, Duratex e CCR, a Gerdau aumenta nossa exposição nos dois setores. Embora barata e bem posicionada, decidimos retirar a JBS do portfólio.
Aumentando nossa exposição ao e-commerce substituindo LAME por MGLU
Estamos aumentando nossa exposição ao e-commerce com a substituição da Lojas Americanas pela Magazine Luiza. Embora o valuation da MGLU não seja uma pechincha, ela aproveitou a mudança no comportamento do consumidor causada pela pandemia e apresentou forte crescimento e resultados sólidos.
O setor de telecomunicações ainda está barato; Vale, B3 e Petrobras completam nosso portfólio
O setor de telecomunicações está extremamente barato, principalmente considerando as profundas mudanças ocorridas com a venda do Oi Mobile e a criação do Oi Infra. Nossa exposição ao setor se dá via Oi e TIM. Com o BRL a R$ 5,62, continuamos expostos a um USD forte via Vale. A bolsa de valores do Brasil B3 (fortes entradas em ações e um boom nas atividades de Mercado de Capitais) e a gigante do petróleo Petrobras completam nosso portfólio.
Vale (VALE3):
Normalmente, é uma má ideia comprar ações de commodities durante uma recessão, mas vemos o minério de ferro como uma das poucas histórias específicas isoladas da crise, explicando a estabilidade relativa dos resultados da Vale em 2020. A demanda de minério de ferro da China (~70% do mercado transoceânico) permanece forte como sempre, enquanto as agudas interrupções no lado da oferta colocaram os mercados em um déficit até o momento no ano – os preços spot permanecem próximos de ~US$ 120/t (mesmo que esperemos que eles caiam à frente). Nesses níveis, tudo indica que a Vale poderia entregar perto de US$ 19 bilhões de EBITDA em 2020, resultando em um FCF yield acima de 20% (ex- saídas de Brumadinho) de fluxo de caixa. Embora as ações estejam inegavelmente baratas em qualquer métrica, ainda acreditamos que a redução na percepção de risco da tese da ação será um processo gradual, com base em três pilares: (i) o retorno de caixa (recentemente restabelecida a política de dividendos) deve gerar entradas adicionais; (ii) forte recuperação nos volumes e custos decrescentes; e (iii) melhorar marginalmente a percepção ESG, dado o foco maior da administração no tema desde Brumadinho (longo prazo). Vemos as ações negociando a ~3,5x EBITDA 2020 (grande diferença em relação aos pares) e optamos por mantê-la em nosso 10SIM, pois ainda vemos um potencial de valorização, mesmo que punindo a ação por vários ângulos.
Magazine Luiza (MGLU3):
Embora as operações de varejo físico (B&M) da MGLU devam se recuperar apenas gradualmente nos próximos trimestres, graças a uma jornada impressionante nos últimos anos e seus esforços no desenvolvimento de uma plataforma de e-commerce com uma ampla variedade, alto tráfego e foco em níveis de serviço, vemos a MGLU bem posicionada para continuar crescendo acima do mercado (incluindo um forte desempenho no 3T), e deve ser um dos vencedores em potencial no setor de e-commerce brasileiro. Apesar de um caro valuation, com a Magazine Luiza sendo negociado a 2,3x EV/GMV 2021, ainda vemos fortes perspectivas de crescimento no curto prazo e sólidos pilares estruturais no longo prazo, sustentando um sólido momentum.
Petrobras (PETR4):
Desde o início da pandemia, reiteramos nossa classificação de Compra, refletindo sua resiliência de longo prazo, mesmo sob um ‘novo normal’ para os preços do petróleo, sustentado por ativos de Exploração & Produção de primeira linha. Embora permaneçamos conservadores quanto ao ritmo de recuperação do preço do petróleo bruto, o foco da PETR em projetos de alto retorno na área do pré-sal significa que deve ser capaz de reduzir o ponto de equilíbrio do petróleo abaixo de $30/bbl, abrindo caminho para lucros sustentáveis a longo prazo. Além disso, esperamos que os fundamentos comecem a pesar sobre as ações no curto prazo, já que o pior momento para os mercados de petróleo agora parece ter ficado no passado. Reconhecemos que uma decisão negativa do Supremo Tribunal Federal sobre se a PETR será capaz de prosseguir com o desinvestimento de suas refinarias sem a aprovação do Congresso pode dificultar um re-rating mais rápido. Dito isso, acreditamos que os preços atuais das ações incorporam quase nenhuma das vantagens decorrentes de uma decisão positiva. Com as ações negociando a um FCF yield de 2021 de +25%, acreditamos que o caso de investimento ainda oferece um risco/retorno atraente.
Gerdau (GGBR4):
Estamos adicionando a Gerdau ao nosso portfólio porque a empresa combina uma série de qualidades que valorizamos: forte crescimento da receita, baixa alavancagem, geração de FCF, pouca exposição cambial e uma recomendação temática (imobiliário). Acreditamos na força estrutural dos mercados imobiliários no Brasil e esperamos que a demanda por aços longos continue tendo desempenho superior ao dos planos. Pela primeira vez em anos, acreditamos que a empresa está bem posicionada para repassar aumentos de preços e superar as expectativas. Vemos o mercado brasileiro de aços longos expandindo a/a em 2020, enquanto esperamos que a Gerdau ganhe participação de mercado, devido ao seu forte posicionamento no (em expansão) segmento de varejo de construção. Também acreditamos que há um potencial positivo de expandir a lucratividade nos EUA, mas as expectativas continuam baixas (pacote de infraestrutura em algum momento?). Embora a ação não esteja barata com base em 2021, vemos um crescimento de vários anos à frente e a melhor história bottom-up do setor. A Gerdau é negociada a 6,1x o EBITDA 21, um pouco abaixo de seu múltiplo normalizado.
CCR (CCRO3):
A CCRO3 é hoje a nossa principal opção de transporte, com base em: (i) modelo de negócios defensivo, que se mostrou resiliente durante a crise, com dados de tráfego de setembro confirmando uma recuperação gradual; (ii) o sólido cenário de longo prazo do setor, já que o Brasil ainda enfrenta uma lacuna de infraestrutura e o pipeline de concessão deve retomar no período pós-crise, quando também esperamos que a CCR se beneficie de um ambiente menos competitivo, devido à pressão financeira enfrentada pela maioria dos pares diretos e (iii) níveis de valuation atraentes, negociando a uma TIR real de 7,0%. Além disso, sinalizamos que o potencial anúncio do reequilíbrio de contrato deve se tornar um evento positivo no setor, removendo ameaças antigas sobre as ações da CCR (em nossa análise preliminar, os desequilíbrios podem adicionar R$ 6,0/ação ao nosso preço-alvo). Após um longo período de discussão, vemos esse reequilíbrio contratual atingindo seus estágios finais dentro do governo do estado de SP, com a criação de um comitê especial com o governo do estado para discutir todos os seus reequilíbrios pendentes de uma só vez – o que, por sua vez, cria uma perspectiva positiva sobre o assunto para todo o setor.
TIM (TIMP3):
As operadoras de telecomunicações em geral devem superar outros setores em tempos com menos visibilidade, dado seu modelo de negócios resiliente e forte geração de fluxo de caixa. No caso da TIM, acreditamos que há uma vantagem adicional de uma possível transação de M&A envolvendo a Oi Mobile. As sinergias podem ser consideráveis. No caso da TIM, se a venda da divisão móvel da Oi por R$ 16,5 bilhões for confirmada, estimamos que as sinergias poderiam chegar a R$ 3,5 por ação, que somadas ao nosso preço-alvo de R$ 16,5, resultariam em um preço-alvo de R$ 20/ação.
B3 (B3SA3):
Tivemos a oportunidade de realizar uma videoconferência com o Chefe de Produtos da B3 há algumas semanas para repassar todas as diferentes iniciativas da B3 para garantir sua posição de destaque, aprimorar seu relacionamento com os clientes e contribuir para o aprofundamento financeiro (financial deepening) do mercado de capitais brasileiro. Além disso, o 3T provavelmente será forte novamente, o que, juntamente com a recente liquidação, cria-se um ponto de entrada atraente.
Em nossos relatórios, sinalizamos que taxas de juros anormalmente baixas e fluxos de informação substancialmente mais altos por meio de canais digitais contribuíram para um rápido aumento no número de Pessoas Física na B3. Embora parte desta nova atividade comercial possa ser indiscutivelmente cíclica (de curto prazo por natureza), o COVID-19 pode ter apenas acelerado as tendências estruturais em vários anos, o que pode se provar muito poderoso para o B3 e a indústria de mercado de capitais do Brasil. Como resultado, B3 tem sido uma de nossas Top Picks e, portanto, merecidamente mantém seu lugar em nosso portfólio por mais um mês.
Cyrela (CYRE3):
Apesar do surto do Covid-19, estamos vendo uma recuperação rápida de vendas de imóveis domiciliares no segmento de renda média/alta (as vendas de junho foram mais fortes que maio, e julho/agosto tem se mostrado sólidas também). Em nossa opinião, isso é impulsionado, principalmente, pelas taxas de hipoteca mais baixas de todos os tempos (os bancos continuam anunciando novos cortes nas taxas de hipoteca, como foi o caso do Santander e Itaú). O cenário é muito incerto (ainda é cedo para prever todos os impactos do Covid-19 na economia e, mais importante, se veremos uma recuperação acentuada nos próximos meses), mas reconhecemos que a Cyrela está muito bem posicionada para surfar a recuperação do setor habitacional, pois possui marcas diferentes que atendem a todos os segmentos de renda, enquanto o valuation parece atraente em um cenário em que as vendas de imóveis começam a se recuperar e a empresa retoma os lançamentos (vemos a ação negociando a 1,9x P/TBV). Com uma perspectiva mais positiva nos próximos meses, estamos mantendo a Cyrela ao nosso portfólio 10SIM.
Oi S.A. (OIBR3):
Depois que o plano de reestruturação revisado da Oi foi aprovado em uma assembleia geral de credores em 8 de setembro, decidimos reavaliar nossa tese de investimento e revisar nosso preço-alvo de soma das partes para a empresa. Nosso novo preço-alvo é de R$ 2,80 por ação, ante R$ 2,0 anteriormente, indicando um potencial de valorização de 63%. A consequência imediata da revisão do plano aprovado é que o caso de investimento da Oi está muito menos arriscado, pois agora está autorizada a vender ativos que podem levantar R$ 24 bilhões em caixa novo, que seria usado para pagar algumas dívidas e fornecer o capital necessário para investir em sua estratégia focada em fibra (vários desses ativos já receberam propostas firmes). O plano revisado também esclarece o verdadeiro valor da dívida reestruturada da empresa.
Duratex (DTEX3):
Estamos mantendo a Duratex em nosso portfólio por acreditarmos que a empresa deve se beneficiar dos fortes mercados de construção (pequenas obras + reformas + novos lançamentos) tanto nos próximos trimestres quanto no longo prazo. Depois de ser severamente impactada pela crise no 2T20, a DTEX está operando perto da capacidade total na maioria de suas linhas de produção (recuperação em forma de V) e agora esperamos uma expansão do EBITDA (a/a) para 2020 (maiores volumes e margens no2S20). Ainda assim, esta não é uma história barata com base em múltiplos de curto prazo (~10x EBITDA 21), mas acreditamos que a recuperação em curso na empresa justifica nosso otimismo para as ações – caminhando para uma história menos comoditizada e mais centrada no consumidor. À medida que a empresa aumenta a exposição a negócios de maior margem/menor capital investido (diluição da exposição em painel de madeira), acreditamos que o potencial de ROE de longo prazo foi substancialmente refeito e vemos que este é um aspecto crítico do caso de investimento.
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